12 Menino dos anos de modelo antigo

Sobre as escolas e as humilhações

2019.03.14 16:59 TcheQuevara Sobre as escolas e as humilhações

Da primeira à quarta série era praticamente todos os dias. A sala inteira contra mim, ao mesmo tempo. A professora só intervinha se o volume atrapalhasse a aula.
Um dia fomos parar na sala da diretora, eu e dois dos meninos que me agrediam. Eles estavam calmos. Quando comecei a contar o que aconteceu tive uma crise de choro. A diretora se irritou. "Pára de chorar!", gritou. Os meninos riram. Isso, aliás, foi no antigo Colégio Modelo (Curitiba/PR).
Os próximos 6 anos estudei no Colégio Decisivo Cristo Rei. Houveram anos melhores e piores. Mas a lógica era que eu era uma mensalidade só, os que me humilhavam todo dia eram 10 ou mais mensalidades.
A psicóloga me olhava com pena. A única medida que a escola tomou em 6 anos foi me trocar de sala para eu ficar longe dos agressores habituais. Uma vez.
Um dia foram me fazer um chazão (me levantar pela cueca) e desta vez me resolvi me defender. Já estava com os pés longe do chão quando minha mão, com a palma aberta, atingiu o rosto de um dos rapazes. Ele me deu um soco em cheio no rosto - em mim, que estava imobilizado, cercado por 5 rapazes me fazendo chazão ao mesmo tempo. Eu tinha 15 anos, acho. Saí da sala (é , foi dentro da sala de aula) por conta própria. Meus óculos tinham quebrado no meu rosto, que estava sangrando. Fui à sala do diretor pedagógico. Numa crise de choro, com sangue no rosto, tentei contar o que aconteceu. Ele só levantou os olhos da ficha que estava em sua mesa e esperou eu terminar de falar. Disse "tá bom, Vinícius" e voltou os olhos à mesa. Voltei para a sala. Ninguém foi chamado. Meu pai não ficou sabendo. Sequer me mandaram à enfermaria.
Quando eu tinha 12 anos, um dia era a sala inteira fazendo chacota, rindo alto de outro espetáculo público de lágrimas e balbucios. A professora se irritou porque não conseguia continuar a aula. Um dos agressores levantava a mão, louco pra falar. A professora, irritada, cedeu - que é, Marco Aurélio? "É que o Cebolão tá chorando!". Num movimento só reagi: me levantei, ergui minha cadeira e joguei na sua direção. Ele, atleta, ágil, se esquivou num belo movimento. A perna da cadeira pegou de raspão no olho de uma menina, outra agressora de todos os dias. Ela começou a chorar. A professora disse: "violência, não!". Fui suspenso - só eu, claro - com a sensação rara de dignidade.
Muito tempo passou e eu sou um homem adulto, pai de família. Nao tenho rancor das crianças que me fizeram mal. Eram crianças. E infelizmente eu reconheço que teria feito o mesmo se a situação fosse inversa - se eles fossem os estranhos e eu não.
Mas não consigo entender porque nenhum desses adultos todos interveio, jamais, diante de tanta violência psicológica. Eles tinham até pena (quando não participavam), mas nunca fizeram nada. Por quê? Não acontecia às escondidas. Eram dezenas contra um menino só, todos os dias.
Deles, sim, eu tenho muito rancor. Deles eu queria muito uma explicação.
Por isso não engulo essa repentina indignação de uma sociedade que considera normal a humilhação e a violência contra os jovens. Amanhã tudo volta ao normal. Amanhã a depressão, o isolamento e a crueldade voltam a fazer parte do dia a dia escolar. E todos são heróis da educação. Todos trabalham para a escola melhorar na nota da avaliação do MEC, ou para os alunos serem politizados ou para ou alunos não serem politizados. E todos dizem que no Japão o professor é respeitado pelo imperador. Todos arregalam os olhos imaginando o belo futuro que terá o Brasil se houverem o dobro de aulas de matemática, educação sexual ou empreendedorismo na grade curricular. Pais, pedagogos, professores, ministros e secretários. Pecuaristas querendo preparar bons indivíduos para o futuro usufruto do mercado, da democracia ou da pátria. O sofrimento dos alunos, inerente ao sistema escolar, não é visto como um problema político, ético ou humanitário.
Não conheço o Brasil todo. Mas as escolas particulares em que estudei eram fábricas de abuso infantil. O abuso dava lucro; a disciplina ou a solidariedade dariam gastos...
E aí, quando a situação chega ao extremo que chegamos ontem, o problema são haverem armas de mais ou de menos.
submitted by TcheQuevara to brasil [link] [comments]